Desde o ressurgimento do conflito na região de Kivu do Norte, em Goma, na República Democrática do Congo (RDC), entre o grupo armado denominado M23 e as forças governamentais congolesas, que a União Africana (UA) e a Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) designaram Angola como mediadora para promover negociações que levassem à pacificação de um conflito que já perdura vários anos.
O Presidente angolano, João Lourenço, realizou diversas cimeiras com representantes dos governos de Ruanda, liderado por Paul Kagame, e da RDC, sob a presidência de Félix Tshisekedi. A primeira reunião tripartida ocorreu em 15 de dezembro de 2024, em Luanda. No entanto, analistas políticos questionam a capacidade de Angola para exercer um papel eficaz na mediação.
O cientista político António Cahebo defende que Angola carece de “moral e dignidade” para conter e resolver sozinha o conflito. Segundo Cahebo, “os recentes pronunciamentos feitas com a clara intenção de causar afronta e provocar uma reação negativa assim como desrespeitar a liderança dos rebeldes, João Lourenço torna a situação ainda mais delicada”. Para Cahebo, o executivo angolano não conseguiu capitalizar sua posição como Estado mediador, colocando em risco a estabilidade regional.
O especialista acrescenta que Angola perdeu credibilidade junto aos principais envolvidos no conflito, em especial Ruanda. Esse descrédito, o cientista político, é um reflexo de uma diplomacia enfraquecida sob a liderança de João Lourenço. “Perdemos o prestígio regional e não soubemos aproveitar o legado deixado pelo governo anterior”, afirmou Cahebo.
O especialista em relações internacionais Osvaldo Mboco reforça essa visão, apontando que o papel de Angola como mediador está ser contestado pelo próprio Presidente ruandês, Paul Kagame. Segundo Mboco, “na perspectiva do Presidente ruandês, Luanda deixou de ser um bom interlocutor diante do conflito”.
Mboco alertou para possíveis repercussões diplomáticas, destacando que Angola assumirá a presidência da União Africana neste mês de fevereiro, observando que essa posição pode oferecer ao país um poder de articulação ampliado em questões de segurança continental. Entretanto, o especialista pondera que tal responsabilidade pode também levar a uma escalada de tensão com Ruanda. “Existe o risco de um confronto diplomático direto caso Angola decida pressionar Ruanda utilizando sua posição na UA”, enfatizou.
Diante do cenário tenso, Mboco sugere que Angola se distancie do papel de mediador para manter uma posição neutra e preservar seus interesses nacionais. Ele também destacou a importância de reforçar as fronteiras com a RDC para conter uma possível escalada migratória em solo angolano.
O conflito em Kivu do Norte já resultou em mais de 700 mortes e no deslocamento de centenas de refugiados. Relatos apontam para um apoio financeiro e logístico do governo ruandês ao grupo rebelde M23, fato que agrava ainda mais a tensão na região.
A situação demanda soluções diplomáticas urgentes e uma atuação assertiva e equilibrada por parte dos atores regionais, sob pena de comprometimento da paz e segurança em uma das regiões mais instáveis do continente africano.
Tavares Gabriel
O Decreto




