MPLA: Um castelo a João Lourenço

O Bureau Político do MPLA, partido no poder em Angola, apresentou na noite de terça-feira, 17, o novo Secretariado. Contudo, das 18 posições, apenas três são ocupadas por novos rostos. O tão anunciado processo de renovação parece ter deixado muitos veteranos intocáveis nas estruturas do partido, sabe-se que apenas dois membros do secretariado têm menos de 40 anos: Justino Capapinha e Nádia Monteiro.

No 8.º Congresso Extraordinário do MPLA, concluído no mesmo dia, esperava-se que as alterações trouxessem um impacto significativo em termos de rejuvenescimento. No entanto, militantes atentos daquele partido interpretaram o congresso como tendo se focado apenas em ajustes estatutários que beneficiam o Presidente João Lourenço, incluindo a remoção de Luísa Damião do cargo de Vice-Presidente e de alguns dos seus aliados que ascenderam supostamente sem mérito às estruturas centrais do partido: “No entanto, entre os nomes ligados à ala de Luísa Damião, apenas Maricel Capama e Carla Ribeiro permanecem no Bureau Político (BP)”, concluiu a nossa fonte.

Segundo os dados apresentados, apenas três dos dezoito membros do Secretariado estão a ocupar o cargo pela primeira vez: Mara Regina da Silva Baptista Domingos Quiosa, agora Vice-Presidente do MPLA, Nádia Agostinho Monteiro, Secretária para Administração e Finanças, e Justino Fernando de Castro Capapinha, Primeiro Secretário Nacional da JMPLA, número muito  aquém da prometida renovação destacada por João Lourenço no seu discurso de abertura do Congresso.

Análise: A perca de tempo de João Lourenço

Analistas lamentam o adiamento de uma verdadeira renovação e rejuvenescimento no MPLA por parte de João Lourenço. Para os especialistas, as mudanças levadas acabo nos estatutos representam um claro retrocesso, uma vez que a escolha de candidatos exclusivamente pelos órgãos do partido reflete práticas típicas de regimes de partidos únicos e de linhas comunistas, como os da China, da Rússia e da antiga Alemanha nazi. Em contraste, destacam que, em estados mais avançados democraticamente, realizam-se eleições primárias entre pré-candidatos, incluindo para o cargo de Presidente da República.

Os analistas alertam ainda que qualquer indivíduo apontado por João Lourenço para cargos de Presidente da República, poderá, mais tarde, enfrentar o partido e suspender os estatutos do MPLA, uma vez que, o Estado não deve estar subordinado a partidos políticos, o que evidencia um potencial conflito entre as decisões partidárias e os princípios democráticos.

Para o analista político Manuel Cornélio, o Congresso adiou o rejuvenescimento das estruturas do MPLA, sendo o verdadeiro objectivo consolidar o poder do Presidente João Lourenço.

O jurista acrescentou que muitas das figuras promovidas ou reposicionadas no Congresso já ocupavam cargos anteriormente, tendo mudado de funções mais de duas ou três vezes no mandato vigente. Para Cornélio, trata-se de um círculo viciado que não abre espaço para mudanças significativas.

“O que se verifica é a vontade expressa do Presidente João Lourenço de criar condições para ampliar o seu poder, na eventualidade de continuar como Presidente do MPLA após as eleições. Isso está claro, porque, se analisarmos mais profundamente, não há muito mais que se possa esperar”, concluiu. Por outro lado, o analista Joaquim Jaime defende que o processo de rejuvenescimento foi conduzido de forma estratégica, ainda que mais cautelosa do que se esperava.

“Havia muita expectativa relativamente a um impacto muito maior no processo de rejuvenescimento, mas notou-se que o líder do MPLA decidiu ser cauteloso, de modo que o rejuvenescimento não representasse um rompimento com os veteranos do partido”, argumentou.

Segundo Jaime, a ascensão de novos rostos nas estruturas do MPLA baseou-se numa avaliação positiva e no mérito dos militantes recentemente promovidos.

“Os vários objectivos definidos para o processo de rejuvenescimento estão directamente ligados à necessidade de garantir a continuidade do MPLA enquanto partido político. A introdução de jovens fortalece as estruturas do partido e traz um arejamento do ponto de vista das ideias políticas. É essencial que os partidos se actualizem e estejam preparados para enfrentar os desafios sociais, políticos, económicos e culturais de cada contexto”, explicou.

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