Análise ao discurso do líder dos camaradas

PRIMEIRO

João Lourenço começou a sua abordagem, no encontro com os líderes dos Comités de Acção do Partido (CAP), com o foco no reforço as bases, apresentando uma narrativa de consolidar a unidade e a coesão interna.

A ênfase na estruturação interna do MPLA, foi a sua primeira tentativa de controlar a narrativa dos secretários e participantes ali presentes. Impondo assim o alinhamento entre os dirigidos a liderança superior. Foi sinal claro de existência de descontentamentos e divisões que ameaçam a estabilidade do partido MPLA. Aí está a “virilha”.

João Manuel Gonçalves Lourenço foi eleito em 2017, por indicação de alguém que ajudou a desistir da vida, José Eduardo dos Santos. Valha-me deus, que este político angolano, que serve temporariamente o lugar de Presidente de Angola, desconhece que o seu segundo e último na face da terra, neste cargo, termina a 15 de setembro de 2027.

Sendo assim, é normal e perceptível que os seus camaradas queiram que politicamente seja substituído por alguém que se chama “Nandó”, a data constitucionalmente marcada, atenção! e nisto não há nada de conspiração.

Ficou claro que os mais de 2700, militantes presentes no encontro entre João Lourenço e os líderes dos Comités de Acção do Partido (CAP), teve um único objectivo – blindar o poder do chefe. Mas não se esqueça que do outro lado do conflito interno, está como não podia deixar de ser – Julião Mateus Paulo “Dino Matross”, tal como, João Lourenço fez questão de denunciar no referido encontro – por de lado deste antigo Secretário Geral do MPLA, estão pessoas bastante poderosas no país. (1) Fernando da Piedade Dias dos Santos, “Nandó”, pré-candidato, e milhares de pessoas o apoiam, entre (2) Manuel Hélder Vieira Dias Júnior, General Kopelipa, (3) Leopoldino Fragoso do Nascimento, General Dino, (4) General Eusébio de Brito Teixeira, (5) a empresaria Isabel Kukanova dos Santos, pelo que sabemos inclusive vários efectivos da guarda do próprio presidente e muitos outros apoiam a substituição de “Lourenço” por “Nandó”, supostamente por ser “conciliador”.

Outrossim, não tão estruturados e do outro lado do conflito interno do MPLA, está o empresário e general Higino Francisco de Sousa Carneiro, HC, apoiado pelo também antigo secretário geral dos camarada, António Paulo Kassoma e muitos outros militantes do MPLA, este pelo menos anda assumido e a fazer campanha publicamente.

SEGUNDO

Na conhecida Estratégia de Vitimização, o presidente do MPLA, faz um ataque a todos os partidos que não votaram a favor da Lei contra o Vandalismo dos Bens Públicos.

Esse discurso é aplicável a uma estratégia onde o MPLA se coloca como a força legítima contra um inimigo interno. Isso ficou claro. Contudo, essa abordagem pode ser perigosa, pois tende a polarizar, ainda mais, o cenário político e pode afastar o diálogo (entre UNITA e João Lourenço, Nandó/Dino e João Lourenço, assim como Higino Carneiro e João Lourenço). Além disso, foi uma acusação vaga sem qualquer sustentabilidade que pode ser vista como uma tática para desviar a atenção de problemas internos que MPLA atravessa. Lamentavelmente, a UNITA vive os seus problemas internos por conta do não alinhamento da Fundação Jonas Savimbi a direcção daquele partido e a forma errada como Adalberto Costa Júnior, presidente da UNITA, lhe dá com os críticos internos (todos eles acabam expulsos ou no mínimo suspensos), por conta disto, tarda a reagir.

TERCEIRO

O líder dos “camaradas” enfatizou a importância de incluir jovens e mulheres em posições de liderança tanto no partido quanto no executivo. Lourenço mencionou o histórico do MPLA em promover jovens, citando o exemplo de José Eduardo dos Santos, e destacou o papel crescente das mulheres na política angolana. Talvez lhe confunda a velhice…

Embora o discurso sobre a inclusão de jovens e mulheres seja positivo e alinhado com as tendências mundiais sobre a diversidade, é importante questionar a profundidade da renovação no MPLA e no Executivo.

A faixa etária dos jovens em Angola, varia dos 14 aos 35 anos de idade, em nossa sã consciência, quantos são os indivíduos deste espaço de idade com cargos relevantes no executivo de João Lourenço? Cuidem-se que Adão de Almeida, Marcy Lopes e eu já lá se fomos!

Se a renovação for meramente superficial ou limitada a algumas posições de destaque, pode não ser suficiente para promover uma mudança significativa dentro do MPLA. Além disso, o facto de não haver renovação de mandatos no próximo Congresso Extraordinário do MPLA é um sinal evidente de resistência à mudança real na liderança do partido.

Lourenço denunciou nepotismo dentro do MPLA. Sabe ele dizer quais foram os critérios previamente definidos para indicar Luísa Damião à vice-presidente do MPLA, Joana Tomás à secretária-geral da Organização da Mulher Angolana (OMA) e Esperança Maria Eduardo Francisco da Costa à vice-presidente da República de Angola? Tem dúvida que os que denunciou o seguem com bastante rigor?

Ou seja, o infeliz discurso de João Lourenço é uma mistura de autoafirmação do MPLA no poder a quase 50 anos, como o pilar da nação angolana. Que no nosso entender é um pilar completamente corroído pela desgraça do seu povo, bastava ver para os rostos de quem veio de Chamiquelengue e Kuaba Nzogi. Foi uma verdadeira tentativa de mobilizar as bases e uma estratégia de confrontação com a fragilizada oposição.

Como disse a mim mesmo, um bom sociólogo escreveu o discurso de João Manuel Gonçalves Lourenço. Se lembram desta frase: “Ninguém é suficientemente rico que não possa ser punido, ninguém é pobre demais que não possa ser protegido”, foi o próprio que disse. Onde anda a sua materialização?

Coque Mukuta

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