Rafael é colaborador e representante de um super general que anda metido em garimpo de água nas terras velhas de Calumbo.
Parece fiel e trabalhador, Rafael é aquele angolano que chega cedo e sai tarde! Entrega tudo. E é ao Rafael que pesa a responsabilidade de receber e entregar os lucros do general.
Cumpridor de regras!
O sócio do general é um cidadão chinês. Liu Yan. Bom falante da língua de Camões, ao seu bom jeito. Fala bem. Sim! Ao seu jeito.
“Amigo, eu ajuda você…”, “Esse não estraga, eu garante” e “Eu faz desconto” — uma identificada forma como os asiáticos chineses se dirigem aos angolanos.
Até aqui, tudo estava bem.
Certo dia, a esposa de Rafael – o testa de ferro do general – gestada que estava, acabara de dar à luz a um “par” de seres humanos. Sim! Isso mesmo. Gêmeos!
Foi assim que Liu Yan decidiu visitar Rafael.
Era uma bela quinta-feira, sol ardente ao modelo dos Zangos. 11h e 15 minutos. Rafael bem disposto. Bem que acabara de receber um casal de gêmeos — “Zekinha e Benjinha”. Recebera igualmente, e de forma calorosa, o sócio do boss, porque para o Rafael era uma honra receber o sócio do super general em sua casa.
Como mandam as regras de um bom pai de família em Angola, Rafael apresentou ao cidadão chinês a sua bela casa. Toda ela musaicada! Marquizada!
Uma sala com iluminação luxuosa. Cadeirão ao preço mínimo de um milhão e duzentos mil kwanzas. Tudo de luxo!
Liu Yan fez chegar o brinde dos recém-nascidos, que teria comprado numa das lojas mais caras do mercado chinês-angolano.
Cumprida que estava a visita, o chinês se despediu da Joaninha, esposa do Rafael, e desejou felicidades.
Rafael acompanhou o chinês até à sua viatura… boss, que é o chinês, sempre na sua Toyota Hilux de cor branca, conduzida pelo seu motorista — o angolano Zezito.
Já na viatura, o Zezito liga o carro para aquecer o motor, e o chinês se despede do Rafael.
Cinco metros depois da partida, o chinês reage como se tivesse esquecido alguma coisa e diz ao motorista:
“Pala, pala, pala…”
“Lafael, Lafaael, você tá loba! Lafaael, você tá loba!”
— dizia o chinês ao Rafael.
Por não ter acreditado que tudo quanto Rafael mostra ser — um bom cidadão, com o salário que tem — tivesse vislumbrado aquela linda casa e luxuosas mobílias de sala.
Por hoje é tudo!
Coque Mukuta
Caso para dizer…
João, João, você tá loba…! João, você tá loba…!
O Decreto


