Numa operação que começou como uma missão clandestina de recolha de informações nos bairros acabou por expor um esquema de abuso de poder dentro do Serviço de Investigação Criminal (SIC).
Tudo começou quando o comissário Rufino Gunza recrutou Afonso Mendes, de 37 anos, antigo estudante do Complexo Politécnico ELSAMINA, em Viana, para actuar como informador. Sem vínculo formal, Mendes foi sendo integrado, pouco a pouco, em tarefas cada vez mais sensíveis.
Segundo o próprio, rapidamente passou de colaborador informal a participante activo em operações: “cheguei a fazer todo e mais algum serviço, inclusive piquete e participação em várias operações, devidamente uniformizado, com colete, boné e arma de fogo, acreditando já estar efectivamente integrado na corporação”, relata em denúncia enviada a Procuradoria Militar.
Apesar disso, a sua situação nunca foi regularizada. Sempre que questionava, recebia a mesma resposta – atrasos administrativos: “o director alegava morosidade por parte do Ministério das Finanças e que, a qualquer momento, os valores seriam pagos com retroactivos”, explicou Mendes na denúncia enviada às autoridades militares.
Entretanto, uma mudança na liderança alterou o rumo dos acontecimentos. Rufino Gunza foi exonerado da Direcção de Identificação e Cadastro e nomeado director do Narcotráfico — levando Afonso Mendes consigo.
A nova missão era clara: investigar casos ligados à droga, com foco em suspeitos com grandes quantias de dinheiro: “cheguei inclusive a denunciar um dos meus familiares que com os seus comparsas se dedicavam na contrafação de moedas que acabaram detidos e alguns supostamente condenados, onde foram apreendidas pelo menos USD 520.000 (quinhentos e vinte mil dólares) contrafeitos”, disse.
“Fui orientado a trazer casos de traficantes que ostentavam valores elevados. Assim o fiz. Mas, para o meu espanto, o dinheiro nunca era apreendido e a droga era sempre apresentada em quantidades reduzidas”, descreve.
O ponto de ruptura surgiu quando Mendes foi instruído a recolher dinheiro de candidatos a ingresso no SIC. A prática acabaria por desencadear a sua queda.
No dia 8 de Maio de 2025, na zona da Camama, foi reconhecido por uma das vítimas, Catarina, que lhe havia entregue 700 mil kwanzas. Sem conseguir escapar, foi agredido por populares e levado à esquadra do Calemba 2, onde afirma ter sido novamente espancado e detido durante quatro dias sem audição pela Procuradoria.
O caso tomou um rumo ainda mais grave quando elementos ligados ao SIC intervieram.
Segundo Mendes, os chefes Yuri e Osvaldo foram buscá-lo à esquadra, negociaram com a denunciante — devolvendo parte do dinheiro — e levaram-no para a Direcção do Narcotráfico.
A partir daí, o cenário agravou-se.
Mendes relata ter sido mantido em cárcere privado durante cinco dias, em condições desumanas, sem alimentação adequada, higiene ou liberdade. Afirma ainda ter sido ameaçado de morte pelo chefe Bangão, que lhe apontou uma arma à cabeça e prometeu executá-lo.
Além do comissário Rufino Gunza, foram constituídos arguidos Bernardo Manuel (Bangão), Osvaldo e Yuri, acusados de sequestro e tentativa de homicídio, segundo fontes da Procuradoria Militar.
O processo-crime n.º 301/025 inclui vários depoimentos recolhidos entre Agosto e Outubro de 2025, envolvendo oficiais e agentes ligados ao caso, incluindo efectivos do DIIP do Calemba 2.
Temendo interferências, Mendes manifesta preocupação com o andamento do processo: “como o processo está na Procuradoria Militar, pode tornar-se vulnerável”, alerta.
O denunciante reforça ainda que o caso tem gerado desconfiança: “desde Dezembro do ano passado, entendo que pode estar a haver sonegação do processo.”
Nos próximos dias, deverá também ser ouvido o porta-voz do SIC, Manuel Halaiwa, indiciado por alegados crimes de difamação e calúnia, por, segundo Mendes, “enganar a comunicação social e o povo angolano”.
O processo está sob responsabilidade dos instrutores da Procuradoria Judiciária Militar, o coronel Bernardo André Augusto e o capitão Ivanilson Vihinda.
