Julgamento de Dino e Kopelipa: Justiça ou Encenação Política?

O julgamento dos generais Dino e Kopelipa parece mais um espetáculo para iludir a opinião pública do que um verdadeiro esforço de justiça. Enquanto Manuel Vicente permanece intocado, João Lourenço manobra para legitimar a apropriação de activos estratégicos, beneficiando grupos próximos ao seu governo. Afinal, trata-se de combate à corrupção ou de uma redistribuição selectiva do poder econômico?

“A CORRUPÇÃO EM ANGOLA, O JULGAMENTO DOS GENERAIS KOPELIPA E DINO E O FUTURO DO PAÍS”

O momento actual de Angola, sob o regime de João Lourenço, tem sido debatido por muitos analistas e cidadãos angolanos: sobre a contradição de um líder, que também fez parte do sistema de poder sob o governo de José Eduardo dos Santos, estar agora liderando um processo de combate à corrupção, envolvendo figuras-chave do seu próprio partido o MPLA, liderando uma estratégia de manutenção do poder que afasta seus camaradas de Partido, que manieta todo País sob o controle de um regime autocrático, mais corrupto e mais incompetente que o anterior, que promove Partidos que assumem discursos para confundir o eleitor, na finalidade da dispersão do voto que tenta a todo custo anular a alternância que tem a FPU (Frente Patriótica Unida) na liderança.

A contradição de João Lourenço é dele ter sido uma figura importante no regime de José Eduardo dos Santos, servindo como Comissário Provincial ao tempo da República Popular de Angola, de Secretário Geral do MPLA, de Vice Presidente da Assembleia Nacional e de Ministro da Defesa. A sua ascensão à presidência em 2017 foi vista como uma mudança de continuidade, mas também como uma tentativa de renovação. No entanto, a ideia de que ele poderia ser uma “figura de mudança” e um líder contra a corrupção foi logo posta à prova, dado seu envolvimento em muitas das estruturas políticas e de poder que, na prática, sustentaram a corrupção durante décadas.

O facto de ele agora estar liderando processos contra antigos aliados políticos e membros do governo anterior, levanta um dilema, especialmente considerando o seu próprio histórico de envolvimento com essas mesmas práticas, com a protecção recente de Manuel Vicente que é considerado como o maior gatuno do erário de Angola. Isso gera um sentimento de desconfiança, já que muitos questionam se a luta contra a corrupção é genuína ou apenas uma forma de purga política contra adversários internos para consolidar sua própria posição de poder. Para muitos, a luta anti-corrupção tem sido mais uma manobra política para consolidar sua autoridade, afastando potenciais concorrentes ou rivais dentro do próprio partido.

Esta estratégia levanta o problema do fim de João Lourenço no contexto de Vinganças no seio do MPLA, porque a saída de João Lourenço em 2027 (se ele completar o mandato ou não) e o futuro do MPLA serão questões cruciais.

O histórico político do MPLA, tem sido marcado por disputas internas, alianças estratégicas e, frequentemente, por vinganças políticas. O partido já foi palco de tensões intensas entre facções, como vimos em episódios da sucessão do Presidente do MPLA António Agostinho Neto e  José Eduardo dos Santos, que não foi pacífica.

A questão de vingança é um tema central, pois muitos analistas apontam que as acções de João Lourenço podem ter motivações tanto de “limpeza” quanto de “revanche” contra adversários políticos internos que podem se ter oposto à sua ascensão ou que representam ameaças ao seu poder. O MPLA sempre foi um partido altamente centralizado e, ao longo dos anos, viu várias disputas internas pelo controle do poder, que culminaram em rupturas sangrentas, como foi o caso do 27 de Maio de 1977, com os serviços de segurança no epicentro dessas lutas.

Caso João Manuel Gonçalves Lourenço não consiga reconfigurar as dinámicas do MPLA e do governo de maneira a garantir sua posição ou a de um sucessor alinhado, o cenário pós-2027 vai ser instável no MPLA, especialmente com o retorno de figuras que foram afastadas, como os “eduardistas” (alinhados a José Eduardo dos Santos), que poderão tentar recuperar o poder.

Nestas condições, o futuro de Angola irá balançar entre as reformas feitas por João Lourenço se serão duradouras ou se apenas serão o seu fim trágico e do seu grupo, se não souber negociar agora com forças opostas no seio do MPLA e com a FPU, ou se serão apenas uma mudança superficial, com novos grupos a beneficiar do sistema enquanto os problemas estruturais, como a corrupção vão continuar presentes ou se será o momento da ampla aliança de salvação nacional com a FPU.

Nestas condições, o futuro de Angola também dependerá da capacidade estratégica de Adalberto Costa Júnior continuar a sustentar a aliança assente numa ampla frente política nacional personificada na FPU que possa projectar um governo de salvação nacional inclusivo, mais transparente que garanta uma saída patriótica da luta contra a corrupção e que não se torne apenas uma ferramenta de controle político.

Em relação ao MPLA, a história de vinganças internas sugere que vai continuar a ser um campo de batalha pelo poder, e isso vai trazer consequências negativas para a estabilidade política e económica do país. Se João Lourenço não conseguir encontrar uma saída equilibrada, pode abrir espaço para uma maior fragmentação interna, que pode se reflectir em uma política destrutiva ainda mais polarizada.

Portanto, a questão principal que se coloca à Angola não é do julgamento dos Generais Kopelipa e Dino. A questão fundamental deve ser transferida para o entendimento da   dinámica política que institucionalizou a corrupção e a violência desde o 11 de Novembrode1975 aos dias de hoje, como Adalberto Costa Júnior não se cansa de chamar atenção.

A compreensão desta dinámica vai ajudar a  perceber quão má tem sido essa cultura política. A compreensão desta cultura política vai ajudar a perceber a complexidade política, social, económica e cultural que dinamitou o esforço de unir os povos das diversas nações envolvidas na espiral destrutiva ao longo dos últimos 50 de Angola independente. A compreensão deste fenómeno político vai ajudar a centralizar a prioridade nacional de construção de outra consciência da angolanidade, que perspectiva novo paradigma político assente no Estado Democrático de Direito com capacidade de mobilizar todas as energias nacionais que serão geridas de forma sustentável para o futuro radioso de todos os angolanos e não apenas para o futuro político de João Lourenço ou de algumas elites do MPLA, atreladas a tensões políticas permanentemente desde a sua fundação.

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Kamalata Numa

 

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