Em Angola, há realidades que já não surpreendem — apenas se repetem. O que ontem seria escândalo, hoje passa por rotina; o que deveria causar indignação, dissolve-se na indiferença colectiva. É neste território difuso entre o absurdo e o quotidiano que emerge a reflexão deste texto, que parte de uma metáfora provocadora para retratar uma sociedade onde a normalização do anormal parece ter-se tornado método, cultura e, sobretudo, sobrevivência.
O texto original “ANGOLA – REPÚBLICA DA NORMALIZAÇÃO DA ANORMALIDADE SATÁNICA”
Prólogo
Dizem os mais velhos que há épocas em que um povo deixa de distinguir o extraordinário do absurdo. Quando isso acontece, nasce uma nova forma de normalidade: a anormalidade aceite, repetida e institucionalizada.
Foi exactamente dessa estranha normalidade que nasceu a história que o leitor tem nas mãos.
Ninguém sabe ao certo quem inventou a teoria. Uns atribuíam-na a um velho professor reformado que passava as tardes numa esplanada da Mutamba. Outros juravam que tinha surgido entre camionistas que atravessavam o país de Cabinda ao Cunene. Havia ainda quem dissesse que tudo começara com um catequista do planalto central que, cansado de procurar explicações racionais para tantos paradoxos nacionais, resolveu transformar a sua perplexidade numa parábola.
A teoria era tão extravagante que parecia saída de um romance de fantasia. Segundo os seus defensores, Angola não era governada apenas por homens, mas por uma misteriosa “República da Normalização da Anormalidade Satânica”, expressão que não descrevia demónios verdadeiros, mas uma alegoria para uma máquina política capaz de transformar o errado em certo, o excepcional em rotina e o escândalo em procedimento administrativo.
Ninguém conseguia provar a existência dessa suposta república invisível. Também ninguém conseguia provar o contrário. E era precisamente nessa zona cinzenta, onde conviviam superstição, humor, medo, desilusão e esperança, que a história começava…
A Tertúlia do Café Imbondeiro
Todas as manhãs, antes de Luanda acordar completamente para o trânsito, para as buzinas e para a eterna pressa, reunia-se no velho Café Imbondeiro um grupo de homens cuja única riqueza era a liberdade de conversar.
Chamavam-lhes “os filósofos do café”. Não porque tivessem estudado filosofia, mas porque faziam perguntas que ninguém conseguia responder.
Ali encontravam-se o professor Mateus, reformado depois de quarenta anos de ensino; o taxista Kalunga, que dizia conhecer Angola pelos buracos das estradas; a zungueira Mamã Rosa, cuja inteligência prática ultrapassava muitos doutoramentos; o padre Agostinho, homem de fé e de prudência; o pastor Eliseu, conhecido pela eloquência dos seus sermões; o jornalista Ventura, que aprendera a escrever mais nas entrelinhas do que nas linhas; e o jovem universitário Elias, convencido de que a História ainda não tinha terminado.
Numa dessas manhãs, enquanto o empregado distribuía chá de gengibre e café forte, Kalunga lançou a pergunta que haveria de incendiar toda a conversa.
— Digam-me uma coisa… como é possível um país tão rico continuar tão pobre?
Fez-se silêncio.
Era uma pergunta antiga, repetida milhares de vezes desde a Independência, mas que continuava sem resposta definitiva.
Foi então que o velho professor sorriu.
— Quando a realidade deixa de obedecer à lógica, aparecem as lendas.
Mamã Rosa interrompeu.
— Lá vem o professor com as suas histórias…
— Não são minhas. São do povo.
Todos se aproximaram.
— Há quem diga — continuou ele — que Angola vive numa espécie de República Invisível. Não aparece na Constituição, não existe nos mapas, não tem bandeira própria. Mas governa hábitos, comportamentos e consciências.
— E como se chama essa República? — perguntou Ventura.
O professor fez uma pausa teatral.
— República da Normalização da Anormalidade.
Todos riram.
O padre Agostinho abanou a cabeça.
— Isso parece título de romance.
— Talvez seja.
— E quem governa essa República? — perguntou Elias.
— Ninguém sabe. Uns dizem que é a Kleptognosia. Outros dizem que é o medo. Outros dizem que é o culto da personalidade. Há ainda quem diga que é simplesmente o hábito de aceitar tudo sem perguntar.
Kalunga bateu na mesa.
— Então essa República é mais poderosa do que qualquer Lei.
— Exactamente.
O professor prosseguiu.
— Reparem no fenómeno. Quando uma mentira repetida durante muitos anos passa a ser aceite como verdade, a anormalidade deixa de parecer anormal. Quando um escándalo já não escandaliza ninguém, alguma coisa mudou dentro da sociedade.
Mamã Rosa sorriu.
— É como vender gelo no Kuito e convencer as pessoas de que está quente.
Todos riram.
O padre, porém, permaneceu sério.
— Cuidado com as metáforas. Há pessoas que acabam por acreditar literalmente nelas.
— Justamente por isso — respondeu o professor. — O nosso povo, quando não encontra explicações políticas, económicas ou sociológicas para os seus sofrimentos, inventa parábolas. É uma forma de tentar compreender o incompreensível.
Ventura tirou o caderno do bolso.
— Então a verdadeira personagem desta história não é um homem.
— Não.
— Nem um partido.
— Também não.
— Então quem é esse tal de Kleptognosia?
O professor levantou lentamente a chávena.
— A Kleptognosia personagem principal também se chama Anormalidade. Ela muda de roupa conforme a época. Às vezes veste farda. Outras vezes usa gravata. Outras ainda aparece de toga, de batina ou de fato de empresário. Não pertence a uma pessoa apenas. Alimenta-se do silêncio, da resignação, da impunidade e da perda do sentido crítico.
O café mergulhou novamente em silêncio.
Do lado de fora, Luanda continuava igual.
As pessoas caminhavam para o trabalho.
Os vendedores ambulantes montavam as suas bancas.
Os candongueiros enchiam-se de passageiros.
E, sem que quase ninguém reparasse, a República Invisível continuava a funcionar, não porque fosse invencível, mas porque demasiadas pessoas já tinham começado a confundir o extraordinário com o normal.
Continua …
Por Kamalata Numa
O Decreto
