Um ambiente de profunda consternação e revolta tomou conta do Bairro Bala-Bala, nos arredores do aeroporto, no município de Cafunfo, província da Lunda-Norte. Um subinspector da Polícia Nacional (PN) encontra-se detido pelo Serviço de Investigação Criminal (SIC) após ter disparado mortalmente contra a sua própria filha, uma criança de apenas 6 anos de idade, identificada como Wayami Fernando.
O trágico incidente ocorreu na noite de quarta-feira, 1 de julho, na sequência de um violento desentendimento familiar que escalou para o uso desproporcional de uma arma de fogo de serviço.
De acordo com os dados apurados pelo O Decreto, a tensão teve início por volta das 19 horas, quando o oficial chegou à sua residência e questionou a esposa, Dona Cecília, sobre o paradeiro da filha mais velha do casal, que não se encontrava em casa. Pouco tempo depois, a jovem regressou acompanhada por dois amigos (apontados como supostos amantes).
Ao ver a irmã chegar, a pequena Wayami dirigiu-se à mãe referindo-se à jovem com supostas palavras ofensivas. A reacção dos acompanhantes da irmã foi imediata e violenta, passando a agredir fisicamente a criança de 6 anos. Ao aperceberem-se das agressões, os pais intervieram para afastar os jovens, gerando-se um clima de confrontação. Na tentativa de dispersar os agressores, o agente efectuou um primeiro disparo de aviso.
Posteriormente, o casal localizou a filha mais velha, que se encontrava escondida num beco das proximidades, levando-a de volta para casa para ser questionada sobre a presença dos homens na residência.
Contudo, a violência não cessou. Minutos mais tarde, o subinspector — já fardado, armado com uma pistola e a bordo de uma motorizada de marca KTM — efectuou mais disparos. Um dos projécteis atingiu gravemente a região abdominal da pequena Wayami. Sem se aperceber de imediato da gravidade do sucedido, o oficial abandonou o local e dirigiu-se à esquadra policial.
Ao deparar-se com a filha estendida no chão nos seus últimos suspiros, a mãe, Dona Cecília, socorreu a vítima e transportou-a de urgência para o Hospital Regional de Cafunfo, onde a criança acabou por não resistir aos ferimentos e sucumbiu. As autoridades policiais locais foram accionadas de imediato a partir da unidade hospitalar.
Relatos de moradores locais, que preferiram salvaguardar a sua identidade sob anonimato, revelam que o comportamento do agente era pautado por extrema violência. Segundo as denúncias, o subinspector utilizava frequentemente a sua arma de fogo de serviço para ameaçar a esposa de morte. Recentemente, uma violenta agressão física perpetrada pelo agente contra a esposa resultou num ferimento grave na cabeça desta, necessitando de receber cinco pontos hospitalares.
A tragédia gerou duras reacções por parte das organizações de defesa dos Direitos Humanos. Jordan Muacabinza, activista e representante da Fundação Protectora dos Defensores dos Direitos Humanos e filiado à Front Line Defenders, repudiou veementemente a acção criminosa e manifestou profunda preocupação com o aumento vertiginoso da letalidade e da violência policial na província da Lunda-Norte, com especial incidência em Cafunfo.
“Temos testemunhado, há bastante tempo, casos semelhantes de acções estatais perpetradas por agentes da polícia da ordem pública que resultam em mortes, execuções sumárias e graves violações dos direitos humanos. Cafunfo é uma região historicamente marcada por desigualdades, ameaças a quem pensa diferente, ausência de políticas sociais eficazes e exclusão institucional”, sustentou o activista.
O portal O Decreto continuará a acompanhar o desenrolar das investigações criminais e o respectivo processo judicial que corre termos contra o agente detido.
Coque Mukuta
O Decreto
