Terror no Garimpo: Corpos de dois jovens encontrados com marcas de violência na Lunda-Norte

As pedras de diamantes nas Lundas continuam a valer mais do que a vida humana. O cenário de terror e impunidade volta a assombrar as comunidades locais, com a denúncia dramática de mais duas mortes selectivas de jovens garimpeiros em menos de um mês, no município de Cassanje-Calucala.

Empurrados pela fome, pela pobreza extrema e pela “miséria obrigatória” que castiga a região, dois jovens – de 19 e 21 anos de idade, saíram de casa em busca do “pão” e nenhum deles regressou vivo para os braços dos pais. Os seus corpos foram encontrados dias depois, a flutuar nas águas do Rio Cuango e de uma lagoa local, com marcas indeléveis de violência.

O Caso de Xavito Miranda Mateus (19 anos): Natural de Cassanje-Calucala, o jovem encontrava-se a estudar em Luanda e tinha regressado à província. No passado dia 16 de Junho de 2026, na companhia de outros garimpeiros, foi surpreendido por vários disparos efectuados pelos homens da Kadyapemba — a empresa de segurança privada que protege a concessão da Sociedade Mineira do Cuango. O ataque gerou revolta imediata na população e nos sobas, que atearam fogo às tendas da segurança. Quatro dias mais tarde, o corpo de Xavito emergiu das águas em avançado estado de decomposição.

O Caso de Yuri Rui André (21 anos): Natural de Cafunfo e residente no bairro Bala-Bala, Yuri foi interceptado na tarde de 29 de Junho na Regedoria de Ngonga-Ngola. Ao avistar os homens da Kadyapemba, Yuri conseguiu alertar os seus cinco companheiros, que nadaram para salvar a vida. Contudo, Yuri caiu nas “malhas” dos operacionais. Após cinco dias de buscas angustiantes, familiares e activistas localizaram o seu corpo na margem de uma lagoa. Devido ao estado de putrefacção, o jovem foi enterrado no próprio local no passado dia 3 de Julho, com o auxílio do Serviço de Investigação Criminal (SIC) e da Polícia Nacional.

A actuação das autoridades locais está sob forte contestação. Segundo os familiares de Yuri Rui André, os efectivos do SIC apressaram-se a declarar que a causa da morte foi “afogamento”. Uma versão categoricamente rejeitada pelo tio da vítima, Sérgio Daniel Sarito, que acusa a polícia de estar feita com a empresa mineira: Toda a pessoa que morre por afogamento aparece com o corpo branco, sem vestígios. No caso do Yuri, o corpo tinha muitas marcas de tortura. Os ombros, os músculos e o pescoço estavam avermelhados de sangue; tinha sangue na boca e no nariz. Quando movimentámos o corpo, escorria sangue pelas narinas. Eles torturaram o rapaz e, com as dores, atiraram-no à lagoa para disfarçar”.

Para conseguir suportar o odor e realizar o funeral, a família teve de lavar o cadáver com lixívia. O jovem Yuri deixa uma viúva em estado de gestação. A família promete apresentar uma queixa-crime formal junto do Ministério Público na próxima terça-feira, 7 de Julho.

Diante do que classificam como um banho de sangue sistemático e silencioso — onde a maioria das vítimas acaba enterrada clandestinamente nas margens dos rios —, o activista e defensor dos direitos humanos na Região das Lundas, Jordan Muacabinza, lançou duras críticas à classe política angolana, distribuindo nota negativa a todas as bancadas parlamentares.

Muacabinza acusa os deputados — com particular destaque para a bancada do MPLA — de cumplicidade e indiferença, afirmando que os automóveis de luxo (Lexus) que os parlamentares exibem são “derivados do dinheiro dos diamantes”. O activista recorda que estes abusos já vinham sendo denunciados desde o tempo em que o jornalista e investigador Até ao momento as autoridades ainda não se pronunciaram sobre o sucedido.

Coque Mukuta

O Decreto

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