JORNALISMO EM ANGOLA: O FIM DA PROFISSÃO? – ANDRÉ MUSSAMO

De um tempo a esta parte, o JORNALISMO em Angola sofreu o seu pior abalo em 50 anos de existência. Nem mesmo a fase de partido único terá registado um período de desvirtuação como nos dias que correm.

Das várias formas de se fazer jornalismo, que mais ou menos a literatura aborda, nasceu um novo e perigoso modelo. O de “pistoleiros virtuais”, a versão melhorada das ‘milícias digitais’ ou da então ‘patrulha Hotmail’.

Fruto da democratização da Comunicação Social e fim do modelo de sentido único, antes reinante EMISSOR/CANAL/RECEPTOR, um conjunto de anarquistas decidiu autoproclamar-se jornalistas e fazer da chantagem o seu negócio, maculando toda uma profissão nobre e com funções vitais em qualquer democracia saudável!

Com recurso a sites e/ou páginas nas Redes Sociais, um bando de apenas alfabetizados decidiu “abrir” um novo negócio: atacar honra e bom nome de terceiros para cobrar recompensas e ainda servir de pelotão de infantaria nas guerras palacianas e de disputas politicas. Chamo-os de alfabetizados, porque aprenderam a ler e escrever e somente isso. Não se deram ao mérito de aprender JORNALISMO como profissão ou componente da ciência.

Não fosse terem escolhido a chantagem e o maquiavelismo, como arma, a abundância de canais de comunicação teria sido uma espécie de balão de oxigénio para uma sociedade que tem os seus media tradicionais, sob cafrique, como disse um dia um comentador mediático. Mas, ao elegerem a busca do lucro fácil com recurso e tanta desonestidade é merecedora de uma acção enérgica e imediata.

fala-se a boca pequena que, há gente que se predispõe a pagar (ou paga) para não ver o seu bom nome arrastado na lama.

Diz-se também que anda a solta um bando de “paparrazes” à maneira angolana, cuja missão é “caçar” cliques fantásticos ou vídeos virais em que com recurso a manipulação editam a favor de suas causas, ou melhor, intentos inconfessos.

Também transformam coisinhas em grandes pautas e são chinesamente pacientes nos seus intentos, capazes de dispararem o mesmo conteúdo por dias, semanas ou meses…Basta que se ‘olho com olhos de ver’ para os grupos de WhatsApp muito em voga entre nós…

Para quem tem a idade profissional que tenho, já não é novidade o latente risco de ser instrumentalizado por fontes interessadas que buscam alcançar seus intentos. Também, já é ‘disco picado’ saber-se que as fontes usam o jornalista para fazer a sua propaganda.

Mas, daí termos nos tornado todos jornalistas, e colegas de quem acordo e dorme a pensar como vai conseguir extorquir o seu próximo milhão de kwanzas pela via da chantagem, já é demais!!!

Confesso, que a desilusão com a profissão era tanta que aventei a aposentadoria imediata. Mas um colega de profissão (dos poucos que ainda restam) disse: tu fazes parte do leque dos poucos que tem a missão de resgatar a profissão e voltar a coloca-la no seu pedestal merecido. É uma luta grande. Uma corrida de fundo, mas, chegará o dia!!!

Assim, saio do fundo do poço da desilusão para dizer que, pela profissão ‘Eis-me AQUI’! a luta tem de continuar, porque a razão é nobre!

Precisamos começar uma operação de resgate ao mesmo tempo que devíamos iniciar uma guerra sem quartel aos impostores e as frutas podres do nosso pomar.

A valorização da autorregulação, a começar por colocar a Carteira Profissão ao menos ao nível da Cédula dos Médicos ou a Carteira dos Advogados, seriam um óptimo tiro de largada para arranque da olímpica corrida em busca da tosca.

Este é convite ao debate!

Aguardo-vos a todos!

ANDRÉ MUSSAMO

Jornalista

 

Quem é André Mussamo?  

André Mussamo é jornalista sénior do jornal O País, professor de Jornalismo na Universidade Jean Piaget de Angola e actual Secretário-Geral Adjunto do Sindicato dos Jornalistas Angolanos (SJA).

Mussamo é também Presidente do MISA-Angola, organização dedicada à defesa da liberdade de imprensa e de expressão.

Com formação de Mestrado em Ciências da Informação, na especialidade de Audiovisuais e Multimédia, passou pela BBC de Londres, onde trabalhou durante vários anos.

Nasceu a 1 de Junho de 1972. As suas raízes estão no município de Bolongongo, província do Cuanza Norte, embora tenha também uma ligação marcante ao Lubango, na Huíla.

Mas é no jornalismo que está um dos capítulos mais intensos da sua vida.

Em Novembro de 1999, André Mussamo foi detido e acusado de crime contra a segurança do Estado, depois de publicar uma matéria sobre a morte de jovens recrutas num centro de instrução das Forças Armadas, alegadamente por falta de alimentação.

Permaneceu detido até Março de 2000, quando foi colocado em liberdade provisória. Mais tarde, foi julgado e absolvido por falta de provas concludentes, num processo que despertou forte atenção e pressão da opinião pública nacional e internacional.

A experiência deixou uma marca profunda na sua trajectória profissional: a de um jornalista disposto a enfrentar riscos para levar ao público informações que considera de interesse público. O seu lema de vida resume essa visão: “Juntos e para o bem de todos.”

Fora do jornalismo, gosta de fotografia e passeios pelo campo. O seu principal objectivo, diz, é simples, mas ambicioso: “Fazer do mundo melhor do que é.”

Quando Angola proclamou a independência, em 11 de Novembro de 1975, André Mussamo era ainda uma criança, algures numa localidade de difícil acesso no município de Bolongongo, no Cuanza Norte.

O Decreto

 

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